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11.07.2006

Arte e Identidade na América Latina

07/11/2006
Agência Carta Maior - Mariza Bertoli

Em congressos, seminários e encontros sobre o tema, críticos e teóricos da arte, com diferentes posicionamentos, têm concordado em um ponto: a urgência de um ideário para a crítica de arte que possa revelar o próprio da nossa arte. Efetivamente a intenção não é mostrar uma homogeneidade, mas apontar para os caminhos do projeto identitário, tão plural quanto as nossas culturas, tão similar na trama simbólica.

O que nos identifica nas nossas diferenças? Quais os nexos de sentido visíveis nessa produção simbólica? São perguntas que nos fazemos, sempre tentando ver através de um ponto de vista lá de fora. Esquecendo-nos da lição das estéticas simbólicas que, libertas do modelo etnocêntrico, afirmam-nos que, no universo da cultura, o centro está em toda parte. É preciso, portanto exercitar o olhar novo, capaz de ver-se e ver-nos no nosso próprio mundo simbólico.

Nessa trajetória, há que se destacar, entre outros, o posicionamento crítico, polêmico e corajoso de Juan Acha, teórico peruano, radicado no México, que considera "a nossa realidade estética" carente de uma crítica capaz de superar as generalizações típicas da cultura ocidental. Afirma o teórico, apaixonado, que indagamos e respondemos, ainda hoje, nos paradigmas herdados do conquistador. É ele quem comenta: o que se costuma chamar de universal nada mais é que o nacional dos países dominantes.

A argentina Marta Traba, crítica de arte destacada, (radicada na Colômbia até o seu falecimento em 1983), postula uma arte de resistência aos mecanismos de dominação, principalmente ao que ela define como "a deterioração proclamada pelas vanguardas estadunidenses". Em contraponto a essas argumentações incisivas, que podem parecer em um primeiro momento extremadas, dialogam diversas orientações teóricas que vêm dando densidade ao tema.

Em qualquer dos casos, porém, a indagação que se impõe é: como apreender esses nexos de latino-americanidade (seja pela presença ou pela ausência) se os imaginários são múltiplos e a cultura hegemônica se apóia nos postulados do universal e dos nacionais?

Sempre que se tenta compreender essas dinâmicas culturais, a recorrência ao momento do modernismo (brasileiro) e dos movimentos vanguardistas (hispano-americanos e caribenho) é uma constante.

Nas décadas de 20 e 30 do século XX, quando eclodiram os movimentos artísticos nas artes plásticas, as sociedades nacionais estavam sacudidas por lutas políticas em todos os pontos do continente. As independências ou a formação dos estados nacionais eram questionadas com veemência no seu centenário. No capitalismo internacional que se estruturava em cada um dos novos estados nacionais, o ecletismo era sintomático e a queima de etapas que ocorria nos centros culturais era típica das culturas dependentes. Perguntavam-se os mais críticos: Comemorar o centenário da independência? Que independência?

Como sempre, eram os artistas, entre os líderes políticos mais avançados, os que questionavam, exigiam mudança, promoviam a ação. Na efervescência desses movimentos, a apreensão dos signos da modernidade dava-se de forma dicotômica, num movimento de impulso modernizador e reação conservadora. Internacionalismo, nacionalismo e regionalismo entravam em luta. Entre mortos e feridos emergia "o novo", "o próprio", a afirmação da identidade.

Podemos considerar os movimentos que eclodiram simultaneamente em todo o continente, como um traço identitário, um arrepio que sentimos ao mesmo tempo em diversos pontos do continente.Observando os manifestos que desencadeiam os movimentos modernista e vanguardistas, pode-se colocá-los em duas grandes vertentes: uma comprometida com as lutas sociais e políticas da sua época e a outra que se mantém dentro dos limites da revolta plástica. Embora seja temerário falar desses limites, sob o enfoque das afinidades, o denominador comum entre esses documentos inaugurais aponta para as seguintes orientações:
  • um olhar para a própria realidade para nos definir e identificar como diferentes perante a Europa;
  • a constatação de que somos uma diversidade que o olhar ocidental tenta homogeneizar;
  • o despertar para a modernidade, seja pela volta ao passado como modelo de reconstrução iconológica, seja pela deglutição das vanguardas européias.

Sente-se nesses manifestos a clara intenção de transformar não só a arte, mas a realidade e, em todos é nítido o desejo de construção ou desvelamento da identidade cultural latino-americana, ainda que seja pelo nacional. Os artistas saem do "nicho divinizado", percebem o idealismo enganoso "da arte pela arte" e aproximam-se do público e das lutas políticas que, além do caráter de vanguarda que as envolve, servem de parâmetro para observar as oscilações entre as diversas regiões do continente. Essas diferenças, que podem chegar ao contraste, podem ser observadas nos próprios manifestos dos movimentos através do modelo de discurso e do alcance dos códigos utilizados; do meio que os veicula; do engajamento no processo político emergente; do afã internacionalista ou do ufanismo nacionalista, da utopia nativista ou do regionalismo.

Observam-se algumas diferenças regionais que se afirmam com nitidez nos pressupostos estéticos elaborados para revelar o novo e o próprio, dessa nova produção simbólica. De uma maneira geral, diz-se que o Sul é mais universalista, enquanto que o Norte é mais nacionalista, mas todas essas afirmações parecem reducionistas, pois não há nada tão contrastante ou polarizado, como veremos através de estudos das Chaves da Arte da nossa América que o site Cores Primárias publicará oportunamente.

Proponho partirmos juntos para uma viagem pelas obras de artistas modernos e contemporâneos de várias regiões da América. Vamos percorrer esse mundo simbólico da visualidade, colocando-nos dentro da obra que está nos nossos olhos. Encontrar-nos nas obras desses artistas pode ser uma maneira de sentir a nossa identidade, a nossa diferença.

Convido os leitores a viver a nossa cultura com olhar e ouvidos novos. Observar nas obras de arte os elos de ligação entre uma pintura e um poema, uma música e um filme ou mesmo um discurso político, é uma forma de exercitar o pensamento crítico e o sentimento de solidariedade entre os povos, a partir desse grande abraço que chamamos identidade.

Mariza Bertoli é especialista em estudos latino-americanos , doutora pelo Prolam
da Universidade de São Paulo e professora da disciplina de Critica e Produção de
Arte na América Latina. É filiada à Associação Brasileira de Críticos de Arte.


Texto publicado no site Cores Primárias, parceiro de Carta Maior na coluna Em Estado de Arte.

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